Paintings

brazilian read-cloak

brazilian read-cloak

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 46cm x 65cm
  • Scientific Name:
    Megaskepasma
    erythrochlamys
  • Year: 2014
ruby lipped

ruby lipped

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 35cm x 26cm
  • Scientific Name:
    Cattleya
    labiata
  • Year: 2015
white orchid

white orchid

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Laeliocattleya
seduction

seduction

  • Tecnic: watercolor on paper
brazilian plants

brazilian plants

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 39,5cm x 28cm
  • Scientific Name:
    Aechmea
    fasciata
    /
    Alternanthera
    sessilis
    /
    Caladium
    sp.
    /
    Gomesa
    sarcodes
    /
    Palicourea
    rigida
    /
    Peperomia
    caperata
    /
    Polypodium
    persicifolium
    /
    Solanum
    lycocarpum
  • Year: 2011
coffee grinder

coffee grinder

  • Tecnic: watercolor on paper
fridericia

fridericia

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 21cm x 17cm
  • Scientific Name:
    Fridericia
    patellifera
  • Year: 2014
brasilian pine

brasilian pine

  • Tecnic: watercolor and grafite on paper
  • Dimensions: 28cm x 39,5cm
  • Scientific Name:
    Araucária
    angustifolia
  • Year: 2012
brazilian nut

brazilian nut

  • Tecnic: grafite on paper
  • Dimensions: 29cm x 23cm
  • Scientific Name:
    Bertholletia
    excelsa
  • Year: 2011
gomesas

gomesas

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Gomesa
    longipes
    /
    Gomesa
    longicornu
  • Year: 2012
seasoning

seasoning

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 29cm x 37cm
  • Scientific Name:
    Allium
    cepa
    /
    Capsicum
    annuum
  • Year: 2012
folliage

folliage

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 39,5cm x 28cm
  • Scientific Name:
    Begonia
    bowerae
    /
    Syngonium
    angustatum
  • Year: 2008
composition II

composition II

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 39cm x 28cm
  • Scientific Name:
    Antigonon
    leptopus
    /
    Asparagus
    densiflorus
    /
    Begonia
    bowerae
  • Year: 2013
urucum

urucum

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 39cm x 28cm
  • Scientific Name:
    Bixa
    orellana
  • Year: 2012
crotons and asparagus

crotons and asparagus

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 62cm X 43cm
  • Scientific Name:
    Codiaeum
    variegatum
    /
    Asparagus
    densiflorus
  • Year: 2009
red foot

red foot

  • Tecnic: oil on canvas
  • Dimensions: 193cm x 132cm
mushrooms

mushrooms

  • Tecnic: watercolor on fabriano paper
  • Year: 2011
tanner

tanner

  • Tecnic: oil on canvas
  • Dimensions: 34,5cm x 26cm
brasilian licorice

brasilian licorice

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Periandra
    mediterranea
  • Year: 2010
temis

temis

  • Tecnic: oil on canvas
  • Dimensions: 58,5cm x 48,5cm
blue ginger

blue ginger

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 64cm x 45cm
  • Scientific Name:
    Dichorisandra
    thyrsifolia
  • Year: 2008
the party is over

the party is over

  • Tecnic: grafitti on canvas
  • Dimensions: 39cm x 49cm
jackfruit

jackfruit

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Artocarpus
    heterophyllus
coral vine

coral vine

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Antigonon
    leptopus
silver vase

silver vase

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Aechmea
    fasciata
flamevine

flamevine

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Pyrostegia
    venusta
  • Year: 2002
gonfrena

gonfrena

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Gomphrena Sp.
bitter melon

bitter melon

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Momordica
    charantia
  • Year: 2007
brazilian-plume

brazilian-plume

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 52cm x 48cm
  • Scientific Name:
    Justicia
    carnea
  • Year: 2009
José and Anita

José and Anita

  • Tecnic: oil on canvas
  • Dimensions: 107cm x 82cm
mistery

mistery

  • Tecnic: oil on canvas
  • Dimensions: 59cm x 49cm
untitled

untitled

  • Tecnic: oil on canvas
  • Dimensions: 49cm x 39,5cm
composition I

composition I

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 39,5cm x 28,5cm
  • Scientific Name:
    Asparagus
    densiflorus
    Costus
    sp.
    Hibiscus
    sinensis
    Periandr
    mediterranea
  • Year: 2012
brazilian licorice

brazilian licorice

  • Tecnic: Nanquim on paper
  • Scientific Name:
    Periandra
    mediterranea
  • Year: 2012
espinheira santa

espinheira santa

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Maytenus
    ilicifolia
begônia

begônia

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Dimensions: 48cm x 34cm
  • Scientific Name:
    Begonia
    cucullata
  • Year: 2006
manacá de jardim

manacá de jardim

  • Tecnic: watercolor on paper
  • Scientific Name:
    Brunfelsia
    uniflora
Dadá

Dadá

  • Tecnic: oil on canvas
  • Dimensions: 187cm x 132cm
zebra plant

zebra plant

  • Tecnic: watercolor and graffiti on paper
  • Dimensions: 39,5cm x 28cm
  • Scientific Name:
    Calathea
    zebrina
  • Year: 2012
schorched earth

schorched earth

  • Tecnic: oil on canvas
  • Dimensions: 207cm x 133cm
annatto

annatto

  • Tecnic: graffiti on paper
  • Dimensions: 39cm x 28cm
  • Scientific Name:
    Bixa
    orellana
  • Year: 2011
untitled III

untitled III

  • Tecnic: óleo sobre tela

Chronicles

Prefácio / Foreword

Prefácio / Foreword

Minha, ou melhor, nossa intenção, ao escrever este livro, era o de registrar algumas das coisas que ocorreram desde a entrada, no Norte do Paraná, de José e Anita – dois apaixonados eternos – que culminou na formação da Vila Primeiro de Maio, depois elevada à condição de município.

Nas longas e numerosas conversas que tivemos, eu e minha avó – meu avô já não estava mais conosco – só coisas boas ou interessantes ela queria contar. Dizia que o que havia sido ruim não merecia registro.

Ela tinha razão.

Mas acontece que a história não se resume aos sucessos, e muita coisa ficou de fora, longe do meu alcance, pois não as vivi. Aliás, uma coisa que sempre me impressionou, é o fato de eu sentir saudades de uma época em que não vivi.

Enfim, foram muitas horas aos pés da sua cadeira de balanço, no terração da antiga casa da Villa Anita – mais conhecida como Bosque – tomando notas enquanto a observava crochetar uma de suas colchas ou bicos em panos de prato.

Após algum tempo passou ela mesma a fazer anotações com sua letra, já trêmula e irregular, mas inconfundível. Letra de mulher inteligente, lutadora, forte. Letra que denunciava a cronologia do corpo, impossível de captar de sua mente arguta de mulher à frente de seu tempo, muito à frente.

Meu último encontro com ela foi durante o sono.

Estava em viagem, em um hotel, quando ela veio me visitar. Nos sentamos aos pés da cama, conversamos por algum tempo. Eu lhe pedi que me levasse junto, mas ela disse pra eu ficar que o meu tempo aqui ainda era necessário. Chorei muito, nos abraçamos, e ela foi embora. De manhã, quando acordei, senti a grandeza do nosso encontro e guardei aquele momento com um carinho imenso.

Isso já faz muitos anos, como também já faz muitos anos que ela se foi.

A vida passa muito rápido e quando não podemos – ou não sabemos – dar a devida importância aos fatos, o tempo nos atropela.

Nossos escritos foram carinhosamente guardados em um pequeno arquivo e ali ficaram até que a vida trouxesse pra perto de mim outra leoa, a outra Anita, a Maria Annita, minha mãe.

Mesma casa, mesmo terração – agora sem a cadeira de balanço – entre tricots e bordados, passamos longas horas recordando felicidades, tristezas, rindo muito ou chorando.

Ampliamos as histórias com depoimentos de outras pessoas. E como são importantes esses depoimentos! E como são importantes essas pessoas!

Ainda há muito a pesquisar, muitos a entrevistar. Acontece que o tempo agora passa ainda mais rápido e preciso colocar ponto final onde só poderia haver reticências.

……………………………………………………….

 

My intention when writing this book was of registering some of the facts that have happened since the arrival of José and Anita – two people eternally in love – to the North of Paraná, which culminated in the formation of the Primeiro de Maio Village, later elevated to the condition of city.

In the long and numerous conversations we had, my grandmother and I – my grandfather was not with us anymore – she only wanted to tell things that were good or interesting. She used to say that bad things didn’t deserve being registered.

She was right.

However, history is not made only of successes, and many things were left out, far from my reach, for I didn’t live them. Indeed, one thing that has always impressed me is the fact that I miss a time in which I didn’t live.

Anyway, many were the hours sitting next to her rocking chair, in the porch of the old house of Villa Anita – better known as Bosque – taking notes while watching her crocheting one of her bedspreads or borders on dishcloths.

After some time she started to write her stories herself, with her irregular and shaky handwriting, however unmistakable. Handwriting of an intelligent, strong, strugglingwoman. Handwriting that showed the chronology of the body, impossible to notice from her sharp mind of a woman ahead of her time, way ahead.

My last meeting with her was during my sleep.

I was traveling, staying at a hotel, when she came to visit me. We sat at the feet of the bed, and talked for a while. I asked her to take me with her, but she said I had to stay because my time here was still necessary. I cried a lot, we hugged, and she went away. In the morning, when I woke up, I felt the greatness of our meeting and saved that moment with great affection.

This happened several years ago, as it has been many years that she has gone.

Life passes by very fast and when we can’t – or don’t know – how to give the facts the importance they deserve, time runs over us.

Our writings have been fondly saved in a small file and stayed there until life brought another lioness close to me, the other Anita, Maria Anitta, my mother.

The same house, the same big porch – now without the rocking chair – among knitting and embroideries, we spent several hours remembering happy and sad moments, laughing or crying a lot.

We added to our stories testimonies from other people. And how important those testimonies are! And how important those people are!

There is still a lot to research, many people to interview. However, time now passes by faster and it is necessary to place a stop where only ellipsis should exist.

O substituto

O substituto

Florindo, o barbeiro, era só, no trabalho. Não tinha ajudante. O que era um problema pois sempre havia um freguês doente que precisava ser atendido em casa e o salão tinha de permanecer aberto. Se fechasse, por meia hora que fosse, perderia clientes.

Assim, tinha um amigo aposentado, seu Felipe Carboni que fazia a ele o favor de sentar-se à porta do estabelecimento enquanto atendia em domicílio.

Mas seu Felipe adoeceu, faleceu, e o problema voltou. Se bem que por pouco tempo porque outro amigo, o Rosquinha, passou a ficar ali na porta, cuidando. O que custava?

E assim se passaram mais alguns anos. E…Rosquinha adoeceu e faleceu.

Desarvorado, Florindo pediu então a outro amigo, o Bressan, que fizesse as vezes de ajudante.

Deus me livre! – foi a resposta imediata. Eles morreram…e agora….eu????

A festa do vizinho

A festa do vizinho

Bill. Esse era seu nome. Aliás, Bill Clinton, em homenagem ao grande presidente norte-americano.

Bill era muito amado mas, também, muito mimado. Não obedecia a nada, nem a ninguém. Hiperativo, teve de sair da cidade grande para viver na chácara, onde tinha bastante espaço para brincar.

Passou-se uma semana de tranqüilidade para todos. Bill andava pela casa sem correr, sem subir nas camas. Deitava-se na varanda e ficava olhando a água do lago como se nada mais houvesse a fazer.

Mas chegou o dia em que Ana e Zeca tiveram de voltar Curitiba e Bill ficou sozinho. E aproveitou!

Era sábado. A festa na casa do vizinho parecia ótima. Aquelas pessoas todas em volta da piscina, outras tantas dentro d’água….E aquele cheiro? O que era aquilo? Churrasco?

Bill não teve dúvida: atravessou a cerca e correu pro outro lado. Estava tão feliz que não percebeu que se ferira ao passar pelo arame farpado. Atrás de si ia deixando um rastro, bem marcado, de sangue.

Estabanado – como só Bill poderia ser – meteu-se entre as pessoas, quase derrubando-as. Aquele sangue todo, manchando a pedra clara, as pessoas, assustadas, gritavam e corriam.

Silas, o responsável pelo marginal, veio correndo até a cerca, chamando-o. Qual o quê! Bill o ignorou totalmente: quem ele pensava que era? Seu dono?

Confusão geral. O bate-boca cresceu de volume. Todos gritando ao mesmo tempo. A noção de bom senso se perdendo a cada minuto.

Tira ele daqui senão eu mato ele! – um dos lado dizia.

Cala a boca! – vinha a pronta resposta, do outro lado da cerca.

Vem aqui limpar esse sangue da minha casa!

Num vô não! Num sô sua empregada!                   

Agora eu mato! Vô dá uma paulada nele!

E assim foi até que, Felipe, o já quase veterinário, chegou para acabar com a crise.

Billzinho, vem cá!

O diminutivo carinhoso trouxe Bill até ele que, calmamente, colocou a coleira em seu pescoço e o levou de volta para casa.

O ganso

O ganso

 Os três amigos, em campanha pela  prefeitura, passavam em todos os sítios e fazendas pedindo votos.

Essa era uma via sacra que se repetia em todas as eleições: água por água, sítio por sítio, casa por casa. Eleitor que não fosse “visitado” ficava ofendido pela desfeita.

Pararam o carro na estrada principal e enveredaram por cerca de quinhentos metros até a casa.

Muito bem recebidos, conversaram com a família, tomaram café e se despediram, não sem antes receber a promessa do voto, dos vários votos.

Fazendo o caminho de volta para o carro escutaram uma barulheira danada vindo por trás: um ganso vinha à toda, como se fora cão de guarda, para atacá-los.

Marinho, o candidato a prefeito, virou-se na sua habitual amabilidade, pedindo ao ganso:

– Calma fio! Calma! – enquanto gesticulava tentando acalmar a ave.

Vendo aquela situação Zezão – apelido indicativo do tamanho – afastou os amigos para o lado:

– Não adianta, é animal! Deixa comigo!

Enquanto falava deu um chute de bico no animal. O pobre subiu, deu um salto no ar e caiu duro, estatelado, no chão.

Morto!

O dono do ganso, ao ver sua ave de estimação naquele estado, gritou lá da janela, desesperado:

–Seus fio da puuuuuta!

À partir daí passou a ser inimigo, declarado,  dos três.

 

Rosária

Rosária

Rosária era uma figura muito popular. Passava os dias andando pelas ruas, tal qual cachorro sem dono.

Parava em frente às casas, falava sozinha, xingava as pessoas, era xingada pelos garotos.

Segundo alguns, louca de pedra. Segundo outros, sem-vergonha que só.

Ao mesmo tempo em que vadiava pelas ruas, tinha um amante nada secreto, casado, para quem passava, todo final de mês, o dinheiro que recebia pela aposentadoria.

Certo dia Rosária bateu na casa da Tieme, e pediu para usar o banheiro, pedido prontamente negado pela professora de pintura: aquela mulher fedia demais!

Xingando muito, Rosária não teve dúvida: sem se importar se era ou não observada – aliás, gostava muito de audiência – levantou a saia, abriu as pernas, e deixou escorrer tudo, líquido e sólido, pernas abaixo,ali mesmo.

Soltou a saia e, após mais um xingamento,  foi embora, vingada!

 

 

 

O amante

A Rosária não é loca. É sem-vergonha. Ela recebe a aposentadoria e dá pro amigo, o Chicão. Depois vai pedi comida na casa dos otro. Sem vergonha!

Com a Maura aconteceu isso. Ela pediu pra usá o banhero. Lambuzou tudo, virou uma catinga. Lambuzou a  patente e a parede. Ela é porca.

Dona Catarina

Carambolas com café

Carambolas com café

Já era meio da tarde e ainda estavam sem almoço! Só de pensar que ainda não haviam terminado a peregrinação daquele dia…

Cansados e famintos, quando viram aquela caramboleira carregada de frutos madurinhos e perfumados, pararam e encheram o “bucho”. Saciada a fome, continuaram pela estrada do sitio, esburacada e poeirenta, até a casa do eleitor.

O marido não estava mas a mulher, com a habitual hospitalidade das pessoas simples, mandou-os entrar pra tomar um café. Tinha muito gosto em receber gente tão importante em casa.

Se não pedir o meu voto eu não voto, hem?

Entraram na casa e o prefeito, candidato à reeleição, sentou-se no “rabo” do fogão à lenha, próximo à janela, por onde entrava um arzinho.

Bastou um gole do café, doce e fraco, para que a revolução intestinal tivesse início.

Disfarçadamente, enquanto o amigo conversava com a dona da casa, virou todo o conteúdo fervente da caneca de ágate pra fora da janela.

– Ai! Ai! Ai! – imediatamente se ouviram  gritos de susto e dor.

Pobre do garotinho que brincava no quintal, bem debaixo daquela janela!

 

Dia da partida

Dia da partida

Dia muito claro, de uma luminosidade tão suave quanto intensa.

A subida, quase vertical, era ladeada pela mata rica e perfumada, que tanto amava. No topo, muitos dos amigos o esperavam, sorrindo. Sua mãe e seu pai gesticulavam, pedindo que se apressasse.

Estranhamente, sentia que o cansaço diminuía à medida em que caminhava. Seu coração ficava mais leve, apesar de uma certa angústia que não conseguia definir.

José…Joséé! – alguém chamou às suas costas. Estacou, parou para ouvir melhor.

Joséé…não vá!

Essa voz…que estranho. Era a voz de Anita. Mas voltar!?  Voltar por quê!?  Estava com tanta pressa!

Joséé…não me deixe!!!

A angústia na voz de Anita era tanta que ele…voltou.

Passaram-se os meses.

Seu sofrimento era sem medida. Tão grande que Anita passou a pedir, implorar, que fosse embora.

Mas ele não ia. Ainda não.

E Anita passou então a rezar, arrependida de não tê-lo deixado partir.

Rezou, rezou muito!

E José, sabendo que agora poderia fazê-lo, foi embora.

E, finalmente, descansou em paz!

 

José Corrêa Porto de Abreu , Zé  Corrêa  –  08/02/1908   a   15/11/1989

 

De graça?

De graça?

Olhos azuis, cabelos loiros penteados cuidadosamente para o lado. Ares e olhares de grande conquistador – pobre esposa – o gerente autorizou, prontamente,   ao vendedor a venda a crédito à bela morena.

Passou-se o tempo e nada de pagamento!

Mais um  mês, mais outro, e nada!

Até que, não dando mais para esperar pelo dinheiro, o gerente enviou o funcionário à casa da bela com a cobrança em mãos.

– Deixe que eu já vou lá na loja acertar – foi a resposta obtida.

A morena se arrumou toda, roupa justa a mostrar as belas prendas, e lá se foi postar em frente à loja – onde todos pudessem vê-la e ouvi-la – e  disparou, alto e bom som:

Como é que é? Tem que pagar?

 Silêncio absoluto!

E você? Quer comer de graça?

Dado o recado, girou nas altas e douradas sandálias, e foi-se embora, calmamente.

Valdick

Valdick

A roupa toda preta, o chapéu…Ser chamado de Valdik Soriano era a glória para aquele homem.

E a pose de conquistador, então! Passava pela avenida, lançando, imagina-se, olhares profundos – por trás daqueles óculos escuros – para as pedestres que com ele cruzavam.

E aquele sorriso…pretendia ser fatal? Todas as tardes, a mesma coisa. Sobe e desce a avenida principal, devagar quase parando, em seu Maverick.

Todos os amigos, todos os conhecidos, sabiam da sua fama mas isso não importava. Importava – e muito – que era um pouco complicado no que dizia respeito à honestidade. Brincou, brincou, abusou tanto que teve mandado de prisão expedido contra si.

Um dia o delegado, seu grande amigo, chamou-o com urgência: precisava de um grande favor seu. Tinha uns documentos importantíssimos para o delegado de Sertanópolis. Será que ele poderia levá-los, já que estava indo para Londrina, e era passagem? Poderia trazer os documentos de volta?

– Mas é claro, meu amigo, levo e trago!

E foi. Pegou seu  reluzente carro e tomou rumo de Sertanópolis.

Chegando na delegacia mandou entregar o envelope para o delegado e sentou-se na recepção.

Logo veio o delegado:

– Seu Caramuru, o senhor está preso!

– Como!? Por quê!? O que é isso!? 

O delegado mostrou-lhe então o documento que trouxera: seu próprio mandado de prisão!

Um churrasco de primeira

Um churrasco de primeira

Dr Vercer e Dr Marçal. Juiz e promotor. Vizinhos de casa na pequena cidade, tinham tudo para se tornarem amigos, grandes amigos.

Aos poucos foram se aproximando, nas conversas após o trabalho, ainda no fórum, ou na casa de um ou de outro.

Os dias foram se passando e, num final de semana, Marçal convidou o novo amigo para um churrasco em sua casa. E Vercer foi. A comida estava ótima, a carne de primeiríssima qualidade e em grande quantidade. Daria para ter convidado muitas pessoas mais.

Dia seguinte logo cedo, ao se encontrarem no fórum, fez questão de agradecer ao amigo pela excelente refeição.

Passaram-se alguns dias. Estava Vercer trabalhando quando entrou em seu gabinete a funcionária do fórum: o rapaz do mercado queria falar com ele.

Vercer mandou que  entrasse. Qual foi sua surpresa ao ser-lhe apresentada uma conta de carne. Não havia comprado nada no mercado e fiado, então, jamais!

O vizinho o tinha convidado para o churrasco mas  comprara a carne em seu nome!

 

O despacho

O despacho

Zelinha era uma mulher muito inteligente – brilhante mesmo – mas com um sério problema: era de uma desorganização financeira de dar dó. Vivia em desespero por falta de dinheiro.

E aquela era uma dessas ocasiões em que tudo dava errado. Andava com uma “urucubaca”  danada. Desesperada resolveu dar uma última cartada: procurou um pai de santo num terreiro de umbanda. De lá saiu com a promessa de que a situação iria ser resolvida. Bastava trazer um urubu pra ele fazer o trabalho.

Muito reservadamente, conversou com um soldado que lhe tinha muito apreço  e,  muito sem graça, fez-lhe o estranho pedido.

Tudo o que a senhora me  pede é uma ordem, doutora! respondeu o homem, e foi em busca da ave, muito abundante lá pelos lados do matadouro.

Dia seguinte, lá veio ele com um saco com algo dentro que se mexia, desesperadamente.

– O prisioneiro ta aqui, doutora! – disse o soldado, feliz pela missão cumprida.

Zelinha voltou, então ao terreiro e escreveu, em uma folha branca, tudo o que lhe afligia.

O pai de santo amarrou o papel no pé do urubu, levou o assustado animal até a porta e o soltou, dizendo:

Todos os seus problemas acabaram. Voaram junto com esse urubu!

Zelinha voltou para casa feliz, esperançosa. Jantou e dormiu bem, como há muito tempo não fazia. Acordou com o mesmo ânimo, tomou banho, se arrumou e foi para o trabalho.

E…nada!

Tudo continuava tal qual antes!

Uma mulher ligeira

Uma mulher ligeira

Eram amigos, muito amigos, desde que haviam se conhecido, há décadas.

Petrôncio era sócio do único cinema da cidade. Ferdinando, dono de um próspero açougue. Aparício….Do que é que vivia mesmo?

Pescavam juntos, viajavam juntos e …. biscateavam juntos. Não podiam ouvir falar de uma mulher “ligeira” que já davam em cima. Carne fresca era sempre bem vinda! As esposas? Ah! As esposas eram de respeito, não eram para safadezas não!

Um dia Aprígio recebeu, feliz, a notícia de que uma certa moça nova, de família, estava louca por ele. Só que havia um senão: ninguém podia saber ou o pai a mataria.

Conversa vai, conversa vem, recadinho pra lá e pra cá, e nada de saber a identidade da moça.  Passados uns quinze dias mandou um ultimato: marque logo esse encontro ou não quero mais nada com você!

E, finalmente, conseguiu. O encontro foi marcado para o sábado seguinte, 19 horas. Seriam deixados, por um dos amigos, no campo de aviação – que não passava de uma pista de pouso, de terra batida. Duas horas depois – tempo máximo que a garota poderia ficar fora de casa – voltaria para apanhá-los.

E assim foi feito.

No dia marcado, na hora marcada, no lugar combinado, estava o ansioso Aparício, cheirando a Tabu e cabelo lustroso de brilhantina. Mal o jeep parou, o homem saltou para dentro. Deitada, totalmente coberta por um lençol, a apaixonada.

De quando em quando, Aparício se virava, passava a mão na perna da mulher e dizia:

– Ei dona. Já, já nóis vamo conversá, né?

E a moça, acanhada, nada respondia.

Chegando no campo de aviação, desesperado e já com as calças abertas, Aparício desceu rapidamente. Abriu a tampa traseira e foi agarrando a moça, que se atirou sobre ele, gritando:

Aparício, seu sem-vergonha!

A “moça” era Ferdinando, o outro amigo!

 

Descasquei o sabiá

Descasquei o sabiá

 Florindo era o barbeiro mais requisitado da cidade. Prestativo, caprichoso e, sobretudo, bom ouvinte.

Naquela manhã de segunda, como já acontecia ha algum tempo, foi atender, em casa,  seu Pedro S.

– Bom dia seu Pedro. Como tá o senhor? Melhorou?

Recostado nos travesseiros, abatido, faces encovadas, o homem respirou fundo, como que buscando forças.

– Home, tô muito bom.  Tanto que essa noite dei duas na veia e de manhã ainda “descasquei o sabiá”!

O barbeiro, discreto,  olhou de soslaio, contendo o riso. Quando se preparava para fazer um comentário descompromissado, entra no quarto  a esposa do “prodígio”.

– Florindo de Deus! O Pedro passou tão mal esta noite! Urinou na cama duas vezes. Tive que trocar toda a roupa dele e da cama duas vezes!

Gravador de rolo

Gravador de rolo

Mil novecentos e sessenta e um. Gravador de voz? O que vem a ser isso?

Naquela cidadezinha ninguém conhecia o dito aparelho então foi fácil, muito fácil, colocá-lo na cozinha, sobre a velha geladeira a querosene que viera pra casa de Zé Corrêa na véspera do casamento da primeira filha, há exatos onze anos.

A mulherada, empenhada na elaboração de deliciosos quitutes, não percebeu o gesto ou melhor, não se importou com a presença daquele aparelho estranho, em que  dois rolos ficavam girando, devagar. E a conversa correu animada e… solta!

Júlio Vieira, o dono do gravador, esperou o tempo necessário.

Após o almoço, já na hora do cafezinho, pôs o aparelho a falar, para surpresa de todos e desgosto de muitos!

 

Parto difícil

Parto difícil

Maria do Getúlio, assim era conhecida aquela mulher.

Não era Maria, ou Maria Parteira. Era Maria do Getúlio. Getúlio, seu marido, que até hoje não sei o que fazia, no que trabalhava. Mas Maria, sim.

Maria era parteira.

E como era importante essa Maria!

Trazia ao mundo quase todos os bebês. O médico só era chamado em último caso, quando o parto era muito difícil. E às vezes, é claro, não havia como chamar o médico e era ela, a Maria do Getúlio, que enfrentava o problema.

E não foi diferente naquele dia.

Correu para atender a moça em trabalho de parto. Era o quarto filho, mas parecia ser o primeiro, tal a dificuldade.

Maria do Getúlio tentou de tudo.

Empurrou a criança. Puxou a criança. Usou ferros. E nada!

Quando viu que mãe e filho iriam morrer, começou a arrancar a criança aos pedaços. Matou a criança para salvar a mãe.   

Mas não conseguiu!

E, naquele dia, nas suas mãos, pelas quais tantos bebês haviam nascido e que tantas mães haviam salvado, morreu a própria filha.

 

 

Ma che potranca!

Ma che potranca!

Num dia de finados, dia de visitar os mortos, Catarino e Alécio, o magro e o gordo, vieram de Borrazópolis, para onde haviam se mudado, para visitar os pais e irmãos.

Lavaram seu túmulo, colocaram flores. Choraram de saudades. Oraram por suas almas.

Já saindo do cemitério cruzaram com Dona Anita e Zé Corrêa, que chegavam com os braços cheios de camélias, brancas e vermelhas.

Com a sensibilidade e sutileza que lhe era inerente, Alécio apertou fortemente as mãos dos dois enquanto dizia:

– Ô, Seu Zé Correia. Como vai Donanita? A senhora tá bunita, hem? Tá véia, mais tá bonita! Você se alembra, Catarino, quando nóis cheguêmo no Primer de Maio? Donanita! Ma che potranca!

                                                                                        

  

É duro ter mulher bonita

Uma vez – eu tinha um Chevrolet velho, 38 – fui levar a tia Anita e o tio Zé em Rancharia. Quando chegou pra atravessar o Porto Casanova tinha um caminhãozinho com uma porção de pessoas que tava esperando a balsa encostar. A tia Anita na frente, no carro, comigo, e o tio Zé atrás, o carro descendo devagarinho, quando um homem falou:

 – Êta morena bonita!

 Eu pensei comigo “agora o tio Zé vai dar uma bronca na hora que parar pra pagar o balseiro”, mas ele virou pra mim e disse:

– Eh, Valdir. É duro ter mulher bonita, né?

Valdir Pereira           

 

Bela mulher

Fui pra São Paulo com a Ivanes Menk porque estava demorando muito a renovação do nosso comissionamento  Éramos  professoras do estado à disposição do Colégio Santa Maria, particular.

Na Secretaria de Estado da Educação encontramos um primo da Ivanes que, asim como o papai, tinha sido pioneiro na região. Quando minha amiga me apresentou como filha do Corrêa Porto, ele falou:

– Com todo o respeito, minha senhora, a sua mãe foi uma das mulheres mais bonitas que eu já conheci!

Marilena

Braulino

Braulino

Braulino, filho dos índios Cizino e Barbina, cada vez que bebia – o que sempre acontecia – vinha pra frente da casa do padrinho, Zé Corrêa,  deitava debaixo de uma frondosa árvore e ali ficava, até passar a bebedeira.

Braulino era de uma ingenuidade e honestidade surpreendentes.

Uma noite Joaquim Maria, o guarda, prendeu o pobre na pequena cadeia da cidade e, também já bêbado, esqueceu de trancar a porta, sentou num canto e dormiu.

A noite chegou trazendo muito frio. Braulino não conseguia dormir. Virou pra cá, pra lá e nada!

À medida em que o “porre” passava, o frio apertava. Até que, não suportando mais, saiu da cela, foi até a aldeia, pegou um cobertor. Voltou, fechou a porta, se acomodou e, finalmente, dormiu.

Joaquim era “otoridade” e ele tinha que obedecer!

 

 

Braulino                                                                                   

O Braulino, um índio que nasceu lá no Tibagi,  na fazenda do papai e que era seu afilhado. Bebia qualquer coisa, tomava aqueles porres, vinha aqui, deitava debaixo do flamboyant, curtia o porre e depois ia embora.

Assim ele fazia com o papai. Papai era o “xerife” da cidade e era padrinho dele. Ele não fazia mal pra ninguém, mas vinha pra casa do chefe, deitava no chão, dormia até passar o pileque, depois ia embora.

Era assim que papai regulava a vida dele.

Era tupi, se não me engano.

Maria Annita

 

E se o lampião apaga?

E se o lampião apaga?

Era sábado e o movimento de carroças, na avenida, intenso. O entra e sai nas lojas sugeria a prosperidade da vila. Sentado em frente à venda, Porfírio tocava com paixão. O tosco banco, branco de tanto lavado, gemia e entortava sob seu peso. Ficou ali por horas e horas, até que o ar fresco da noite o levasse para casa. Caprichosamente colocou o violão na prateleira. Lavou-se na bacia de ágate, apagou a lamparina e deitou-se ao lado de Maria que, instintivamente, encolheu-se no seu canto para ceder-lhe espaço.

As primeiras luzes da manhã a encontraram soprando as brasas para avivar o fogo. Coou o café, sentou-se no rabo do fogão com uma caneca da bebida, doce e fraca, em uma das mãos, e uma grossa fatia de pão sovado na outra.

Estranhando a quietude do marido, voltou ao quarto. Esperou algum tempo, acercou-se dele: estava pálido, o peito não se movia. Chacoalhou-o, mas…nada! Saiu correndo, assustada, atrás de Dona Anita, Mas nada se pôde fazer e Porfírio foi dado como falecido.Na sala, os parcos móveis deram lugar ao defunto e deu-se início ao velório. Pouco a pouco as pessoas foram chegando, até que toda a vila estava por ali. Que dia mais apropriado para morrer, o domingo; ninguém tinha mesmo o que fazer!?

Zé Corrêa colocou as mãos sobre as do morto, orou por ele e afastou-se, pensativo. Deu uma volta, conversou um pouco, retornou para o lado do caixão. Observou longamente o falecido, novamente orou com as mãos sobre as dele e, novamente saiu, ensimesmado. À tarde o cortejo fúnebre seguiu pelas ruas poeirentas até a pequena igreja – o padre aguardava para encomendar o corpo –  e dali partiu para o cemitério que, graças a Deus, ainda era habitado por poucos.

Ao final da cerimônia, sem alarde, pediu ao coveiro que deixasse o caixão aberto até o dia seguinte – pedido acatado como ordem. Anita, que percebera seu ar taciturno, esperava. Sabia que, fosse o que fosse, o marido dividiria com ela.

– As mãos dele estavam quentes! –José não tardou em dizer.

A mulher levou um choque! Confirmara a morte de Porfírio mas, afinal, era farmacêutica e não médica. Olhou para o marido, assustada, sem coragem de verbalizar sua dúvida.

A noite chegou e, com ela, a chuva que se anunciara desde a manhã. À medida em que sua intensidade aumentava, aumentava a inquietude de Zé Corrêa; já bem tarde, quando não agüentou mais. Levantando-se abruptamente, pegou o lampião que estava sobre a mesa, puxou a mulher pela mão.

Vamos fechar o caixão!

Tremendo por dentro, Anita aquiesceu com um gesto. O caminho para o cemitério estava escuro; nuvens pesadas escondiam o clarão da lua. Percorreram todo o trajeto em silêncio, a água escorrendo pelos impermeáveis. Chegando à beira da cova – botas afundadas no lamaçal grudento em que se transformara a terra vermelha recém afofada – Anita, suando frio, pegou o lampião.

Já no primeiro passo José escorregou, caiu de costas e foi deslizando até estatelar-se lá no fundo, em cima do pobre e agora frio e encharcado Porfírio. Gemendo alto – de dor ou de medo não se sabe – levantou-se e correu a escalar a parede. Quando conseguiu sair, enlameado até o último fio de cabelo, segurou firmemente o lampião com uma das mãos; com a outra, agarrou a mão de Anita e, sem dizer nada nem olhar pra trás, tomou rapidamente o caminho de casa.

Porfírio que ficasse para o dia seguinte. Afinal, já estava morto mesmo!?

 

Aquela luz

Aquela luz

Meia Branca, o velho cavalo, estava outra vez na estrada. Para enfrentar aquela lama toda, só aquele bravo, mesmo.

José fora a Sertanópolis resolver alguns negócios e estava voltando, já tarde da noite. Noite de pouca luz, já que a lua minguante se escondia atrás das pesadas nuvens.

De repente, no meio da estrada, uma luz intensa, giratória,  o obrigou a puxar as rédeas do assustado animal, que só não caiu porque foi seguro pelo barranco.

E ali ficaram ambos, não se sabe por quanto tempo. José e a luz. A luz e José.

E, como que acordando de um sonho, José viu-se novamente sozinho na estrada escura.

Assustado estava. Assustado chegou em casa.

Não era louco. Não era mentiroso.

Ele certamente vira um…! Certamente vira!

Além de Anita, nunca, ninguém, o ouviu falar sobre aquela luz!

 

Meia Branca

Me lembro que o papai tinha uns cavalos muito bons de montaria,  arreios, tudo. Meia Branca, Dourado, etc.

O Meia Branca só faltava falar com o papai. Entendia tudo. Tanto que, na revolução, quem salvou o papai uma vez foi o Meia Branca. Papai soltou ele, ele pegou o trilho, veio pelo meio da mata e trouxe o papai aqui embaixo, do lado do Porto Casanova.

Ele pegava o Meia Branca, lá no Porto Casanova, dormia, largava a rédea do cavalo, e o Meia Branca parava na porta de casa.

Eu cresci andando na garupa do Meia Branca. O papai colocava um travesseirinho ali e eu andava ali ou na cabeça do arreio.

Ele era trotão. Um cavalo meio amarronzado com as patas brancas.

Maria Annita

Caldo de cana

Caldo de cana

As duas meninas não davam sossego pro seu Rafael Martins. Toda vez que iam à mina d’água levar comida pra lavadeira, passavam pelo engenho e pediam:

– Seu Rafael, dá garapa pra gente?

E lá ia o homem para a moenda.

Num desses dia em que se levanta de pé esquerdo, sol muito quente, calor, poeira, seu Rafael atendeu prontamente ao pedido das meninas e foi moer a cana, enchendo vários litros.

Maria Annita e Belinha beberam o suco delicioso, com gosto. Quando agradeceram, seu Rafael, olhando de um jeito de dar medo, disse:

– Bebe mais!

Assustadas com a ordem, as garotas beberam mais. E mais. E mais.

Cada vez que pensavam em parar o velho dizia:

– Coño! Bebe mais! Coño!

As meninas quase morreram de medo e de tanta garapa!

Seu Rafael livrou-se das duas para sempre!

Ajuda benvinda

Ajuda benvinda

Joaquim Maria era um homem alto, bem apessoado; usava só terno de linho claro, que contrastava com a sua pele muito negra. Era um rapagão.

Da boa paz, tinha um ótimo coração. Mas, quando bebia…

Com o passar dos anos a bebida foi acabando com ele, física e mentalmente. Vivia de pequenos biscates e da caridade do amigo que o trouxera para ali.

Tornou-se uma figura impressionante! A pele  maltratada, corpo alto envergado, nariz cada vez mais adunco, uma tosse que era ouvida de longe, voz enrouquecida, arrastando os pés como se não agüentasse o peso do próprio corpo, cérebro destruído.

Os ternos de linho de outrora deram lugar a andrajos. E, como se tudo isso não bastasse, trazia nos ombros, sempre, um machado.

Naquele dia Dona Anita estava trabalhando, no cartório, quando chegaram dois estranhos.  Conversa vai, conversa vem, logo estabeleceu-se uma discussão acalorada. As vozes subindo o tom cada vez mais.

Eles queriam que o cartório lavrasse uma escritura de terras do Mato Grosso, o que não era possível. 

Dona Anita, sozinha, já não sabia mais o que fazer quando, de repente, surgiu na porta de entrada aquela figura surreal.

Joaquim parou bem embaixo do batente da estreita porta, tirou o machado do ombro, bateu com força no chão e disse:

– Tá acontecendo arguma coisa puraqui, Donanita?

Os trambiqueiros voaram porta afora e nunca mais se ouviu falar deles!

 

O grande dia

O grande dia

Maio de 1930.

Chovia tanto que parecia que o céu vinha abaixo. Tudo alagado: quintais, ruas, casas…

O rio rugia, mesmo à distância.

Adelina, no entanto, nada enxergava à sua volta. Hoje seria o dia mais feliz da sua vida: finalmente iria se casar com Amâncio.

Pulou da cama, correu para o banho. A água da bacia já estava temperada: nem quente, nem fria.

Lavou-se caprichosamente, vestiu a roupa de baixo, de renda, o saiote de arame e alpaca e, finalmente, o lindo vestido. Tudo branco.

Olhou-se no espelhinho pendurado no prego: estava deslumbrante!

Mal acabara de se aprontar, ouviu o chamado na porta. O noivo, as testemunhas e o seu João Pereira – que iria dirigir o pé-de-bode* até Sertanópolis já que, com aquela chuva, o juiz de paz não viria até a Vila.

A distância era pouca, cerca de 20km, mas o barro – ah,  o barro! – deixava a estrada muito difícil.

E lá se foram eles.

Desliza pra cá, desliza pra lá, mas seu João Pereira, habilidoso, conseguiu levar o carro ao destino.

E os noivos se tornaram “marido e mulher, até que a morte os separe!”.

Felizes, retornaram. Agora, para a festa.

E o pé-de-bode desliza pra cá e pra lá, e de novo pra cá e pra lá. A chuva não dava folga e a estrada parecia ensaboada. Tanto que, ao chegar na Setilha*, o carro emplastra todo e não sai mais do lugar.

Os homens descem, limpam um pouco do barro e começam a empurrar. Empurra daqui, empurra dali e…nada!

Depois de muito empurra-escorrega-cai-levanta-empurra, metro a metro, conseguiram chegar e foram direto para a casa onde seria a festa.

Felizes, muito felizes – apenas os noivos, é claro, pois  os demais estavam num mal humor de dar dó – desceram do carro. Adelina ajeitou o melhor que podia o vestido que fora branco.

Entraram na sala e….ninguém e nada!

A festa já havia terminado!

* pé de bode: apelido dado ao Ford T

* Setilha: Sete Ilhas, originalmente.

  

Um terno pra dois

Tio João veio com papai pra Primeiro de Maio. Não sei se na primeira leva. Acho que veio um pouco depois. Se davam muito bem, como dois irmãos.

Teve uma época em que eles estavam muito mal de vida e tinham um terno só (eram do mesmo tamanho).  Quando ambos eram convidados para padrinhos de casamento (o que era freqüente) tiravam no par ou ímpar para ver quem ia.

Isso era na fazenda velha que está debaixo d’água agora.

Casamento, a turma saia daqui e ia casar em Sertanópolis.

Quando chovia tinha noivos que saiam daqui e posavam na estrada, debaixo de chuva. A Adelina mesmo posou na Setilha, e nós ficamos fazendo festa na casa dela.

Maria Annita

Pára que eu quero cagá!

Pára que eu quero cagá!

No caminhão, sentada entre o motorista e o seu João Nórcia, Adelina, quieta, atenta, escutava os sábios conselhos daquele senhor.

Fazia horas que ele falava e falava, sobre os perigos da terra para onde estava indo.

– Cuidado, principalmente com os animais! Cuidado! Tem muito mato, muita onça!

Adelina, a cada “cuidado” se encolhia um pouco mais. Estava a ponto de pedir para voltar. Era isso mesmo que tinha de fazer. Na primeira oportunidade, na primeira carona, ia dar um jeito de ir até Conceição do Monte Alegre e, depois, voltar para Paraguaçu.

Entre ouvindo e matutando, não se sabe se de medo ou por ter comido alguma coisa estragada, Adelina, suando frio, se torcia em cólicas. Quando viu que não dava mais pra segurar, gritou:

– Pára que eu quero cagá!

Parado o caminhão, Adelina correu pro mato. Aliás, tudo era um mato só!

Mal achou um local onde não poderia ser vista pelos dois homens, levantou a saia, abaixou a calçola e começava a se aliviar quando escutou o primeiro uivo. Que coisa horrível!

Paralisada, ficou escutando. Quando veio o segundo – obra dos homens, é claro – a  moça levantou rapidamente a calçola, soltou a saia e correu, o mais que podia, pro caminhão, fezes liquefeitas escorrendo-lhe pelas pernas.

E foi assim, em meio a um fedor insuportável, que Adelina chegou no norte do Paraná.

 

Filhos de égua

Filhos de égua

Quando mudamos do Estado de São Paulo para o Paraná, em 1929, eu tinha minha primeira filha Maria Annita com um ano. O José não quis que eu viesse com ela antes, sem estar mais forte, pois isto era  mato, não havia recurso perto, Sertanópolis, que hoje é perto porque temos estradas asfaltadas, naquele tempo era longe pois a estrada era pura terra e quando chovia era puro barro, que só andando a cavalo.

Então, como começo de vila precisava de uma capelinha, foi feita bem pequena. Era onde eu rezava o terço. Resolvi juntar uns seis meninos filhos de pais que moravam na futura cidade e então resolvi ensinar um pouco de religião.    Quem era Deus, quem havia criado o  mundo…

Depois comecei a ensinar a eles uma das orações que até hoje eu acho que nos alivia de muita preocupação, que era Salve Rainha.

Quando achei que podia perguntar a eles se tinham guardado um pouco dela, pedi ao Braulino, que era filho do casal de índios  Cisino e Braulina, e o menino olhou muito sério para mim, começou muito bem, até a parte que diz “filhos de Eva”.

– “Filhos de Égua” – ele disse.

Levei um choque e fiquei tão desnorteada que acabei aquele dia o meu catecismo mais cedo e fui pra casa contar ao José o que tinha acontecido e que para ensinar eu não dava mesmo, pois achei que o menino não tinha entendido nada sobre religião.

Mas desculpei porque ele era criança e criança é de Deus.

                                                                                                         

 

  

Leitão à pururuca

Leitão à pururuca

O jantar estava delicioso. O leitão tenro, bem temperado, couro estalando de tão torradinho, pururuca. Parecia dia de festa, tanta a fartura.

Kurt, o dono da casa, alemão forte e rosado, cabelos tão claros que pareciam brancos, auxiliava a esposa a servir o amigo.

Zé Corrêa comia com gosto, apesar de acostumado à mesa farta. A esposa do amigo era excelente cozinheira. Mulher trabalhadeira e muito econômica, sempre na labuta, estava ajudando o marido a amealhar um bom patrimônio.

Kurt era conhecido pela honestidade mas, também, pela sovinice, se é que assim se podia falar de quem tudo aproveitava (tempos difíceis, aqueles!). Da beterraba, comiam até os talos, refogados.  Da casca da banana faziam bolinhos (deliciosos!). As cascas do abacaxi eram fervidas, coadas; o caldo, engrossado com farinha de trigo, virava uma sobremesa leve e saborosa.

Por essas e por outras é que José estava tão surpreso com o convite para o almoço.

Terminada a refeição os homens foram para a varanda fumar um palheiro, momento em que aproveitou para elogiar e agradecer.

­– Ora, seu Zé. Não foi nada demais. Afinal era justo pois o senhor é que me deu o leitão!

Zé Corrêa olhou para o amigo sem entender nada. Criava porcos, era verdade, mas criava-os para vender e não havia dado nenhum a Kurt. Ainda mais agora que estavam com uma doença que ainda não sabia reconhecer. No dia anterior mesmo havia morrido um pequeno leitão….

Enquanto pensava nisso entendeu o que o alemão estava falando, mas pedia a Deus para estar enganado! Seu estômago começou a revoltar-se. Sua visão ficou turva, enquanto aguardava o anfitrião concluir a fala.

– Sabe como é. A vida tá dura e a gente não pode desperdiçá nada. Eu catei aquele leitãozinho que o senhor jogô fora e a mulher preparô pra nóis. Seu Zé, depois de assado o bichinho fica limpinho de qualquer doença. Então, pra que desperdiçá?

Zé Correia não soube dizer como chegou em casa, tão bravo estava de tanto vomitar pelo caminho!

 

Sem desperdício

                         O pessoal do Kurt pegava tudo. Até cachorro eles matava e comia.

Olívia Gusmão

 

Baratinhas

Uma vez o papai parou na Baixada Amarela para  descansar e comer. Quando ele se sentou pra comer desceu uma chusma de baratinhas miúdas em cima da  comida. Ele,  morto de fome, falou:

       – Seja o que Deus quiser. Eu vou comer!

Quando ele começou a comer, o dono da casa falou: “sabe, seu Zé, essa comida tá muito seca...”. Pegou uma concha de gordura e despejou em cima da comida.

Além das baratas ele teve de comer gordura!

Fazer o   quê?

Maria Anita

 

Se precisá, me chama!

Se precisá, me chama!

A viagem foi longa, penosa, apesar da boa montaria.

Zé Corrêa, enquanto aguardava o início dos trabalhos seguia pensando  no quão difícil era a vida no sertão. Mas o quanto amava aquele sertão!

Naquele dia viera servir o juiz de São Jerônimo da Serra. Era jurado, não podia faltar!

O julgamento era de um pobre homem que tinha matado à mando do patrão. O patrão estava solto e ele preso.

Enquanto rolava o julgamento, Zé Corrêa, condoído das condições miseráveis de vida daquele infeliz, pensava: “meu Deus, quem devia estar preso é o mandante e não esse coitado!”.

Também pensando como ele, os outros jurados votaram pela absolvição.

E o homem foi solto.

Cumpridas todas  as formalidades, Zé Corrêa arrumava o arreio do cavalo para iniciar a viagem de volta quando o feliz ex-detento chegou perto para agradecer.

– Muito brigado, viu? Se você precisá  de um servicinho pode me chamá que eu num vô cobrá nada, tá?

 

 

Capanga do desafeto                                                                             

             Uma vez meu pai teve uma encrenca com um homem, que não sei como começou, lá na fazenda velha. Eu era muito pequena.

         Quando veio de Monte Alto, papai montou na fazenda uma casa de comércio que tinha até máquina de costura. Um dia um desavença de Sertanópolis mandou o capanga, de madrugada, comprar fumo. Bateu na porta do armazém e papai levantou e foi ver o que era. O cara disse que queria comprar fumo.

       Mamãe desconfiou da prosa – o cara era mal-encarado – pegou o revólver do papai, trouxe pra ele e disse: “pega, José”.

         Entregou na frente do capanga e, ao mesmo tempo, ficou com uma arma na mão, esperando pro que desse e viesse.

           O homem ficou olhando, virou as costas sem esperar o fumo e deu no pé.

            Ele tinha ido pra matar o papai.

      A fama do papai e da mamãe era de serem excelentes atiradores. Ele derrubava abacate do pé atirando no cabinho, imagine!

Maria Anita

Vamo imbora, Brioso!

Vamo imbora, Brioso!

Como não poderia deixar de ser, já que a solidão e a pinga continuavam fartas, Joaquim Maria seguia bebendo, e  bebendo muito, e sempre se metendo em confusão. Naquela noite, novamente, foi com o João Pereira.

Estavam aos tapas quando Zé Corrêa acabou com o entrevero dando um soco no  Joaquim. Boca e nariz sangrando, Joaquim aquietou, encostou e dormiu.

Acordou são e lúcido, rodeado de gente, na enorme cozinha da fazenda, perto do também enorme fogão à lenha.

Abraçou-se ao seu fiel cãozinho e passou a se lastimar:

– Brioso, vamo imbora daqui! Olha o que o José feiz ni mim! O José que é meu irmão!

 

 

Briga com Pedro Lobo

      Uma vez brigaro na zona o Joaquim e o Pedro Lobo, e o Joaquim veio até aqui atormentando o Seu Zé. Até que o Seu       Zé não güentô, pulô aquela janela ali e saiu correndo atráis dele. O Joaquim se mandô!.

       O Pedro Lobo dormiu num garpãozinho ali no fundo do quintar. Ele foi lá, pegô o Pedro que tava bêbado, botô pra fora e oh! no Pedro Lobo.

        O Joaquim bebia muito e tinha uma tosse terríve. Ele era guarda  e quem precisasse dele procurava pela tosse. Geralmente encontrava o Joaquim na zona.

Zé Gomes

José não tolerava bêbados

José não tolerava bêbados

Um camarada nosso que José trouxe para derrubar mato e que se   chamava Joaquim Maria, um homem bom mas bravo, chega uma noite mais tarde na nossa casa, pelo lado de fora da janela do nosso quarto e diz:

– José, vai tirar o Zé Benedito de fora do meu rancho porque ele está batendo com um pau na parede, bêbado, e não me deixa dormir.

José não tolerava bêbado mas não fez conta e continuou deitado, mas já tinha acordado. Dali uma meia hora, o Joaquim Maria, novamente:

– José, vai tirar o Zé Benedito de lá que eu não posso dormir, e eu mato ele.

Assim foi que, na terceira vez que o Joaquim Maria voltou eu não me contive. Saí da cama e disse a ele:

–Você não vai, vou eu, pois não quero aborrecimento aqui!

Quando fiz menção de sair do quarto, José pulou a janela e foi para o rancho, acomodar a situação. Nessas alturas, o João, meu primo, que trabalhava conosco e morava perto da nossa casa, já estava saindo da casa para  ver o que era e chegou junto com José no rancho do Joaquim.

O provocador da encrenca, o Zé Benedito, no escuro, desceu uma paulada no João e dizia:

–Não foi no Seu Zé que eu bati!

O João,  bravo, disse: 

–Não foi no Seu Zé não, mas você agora vai sair daqui aos empurrões!

E levou o homem até bem longe da casa. Nessa hora até a empregada do João já tinha levantado e estava com o lampião de gasolina aceso, pra clarear o lugar do barulho.

Ninguém mais dormiu, à não ser o Joaquim Maria, que sossegou e dormiu.                                                                                                                   

                                                                                          

 

 

Vinda para o Paraná                                                                                        

        Ele veio pro Paraná junto com o papai, na primeira leva.

        Joaquim era amigo do tio Delo, de farra, de serenata. Era um mulato bem apanhado, um rapagão.

        O Jorge Bernardo era primo do Joaquim. Os pais eram irmãos.

        Ele sempre foi homem de confiança e muito respeitador.

        A paixão da vida dele foi a Trini, essa que casou com o pai dos Monte, pai do Serafim, do Bepe…Ela era irmã do Zé Estrada. Como não deu certo, ele nunca casou.

         Veio pra cá em maio de 1927, direto pra Fazenda Velha. Saiu de Monte Alto (lá ele era bem apessoado, andava só de terno de linho) e veio pra cá pra trabalhar no alambique. Junto com o vô Preto (Sebastião). A pinga do papai era famosa. Ele tinha um canavial enorme mas a pinga que dava era pouca. Depois ele ficou sabendo que desviavam barris de pinga e vendiam em Conceição, Paraguaçu.

         Depois que o vô Preto morreu, passou a morar no quarto que era dele. O Joaquim morreu no hospital.

          Ele tomava aqueles pileques.

Maria Annita

 

Trip to Paraná

Trip to Paraná

May 1927.

Monte Alto, Taquaritinga, Itápolis, Marília, Paraguaçu Paulista, Conceição do Monte Alegre, Porto Casanova. Finally, they arrived to  Paraná. After three long and tiring days, the trip was over. They just needed to cross one last river, Limoeiro, to get to the farm.

Suddenly, the engine of the brand new truck coughed and died.

Anxious to arrive, Zé Corrêa had forgotten to fill the tank. They took one of the gasoline gallons and started to pour the fuel into the tank.

It was a very dark night. Trying to be helpful, one of the helpers lit a match and got it close to the fuel reservoir: they couldn’t waste a drop of the precious liquid.

The fire went from the match to the gasoline very fast, spreading to the tank. The deafening explosion was soon heard for miles.

Nobody died. Nobody got seriously hurt. However, everything was burned.

Everything they had brought was consumed by the flames.

They were left with the clothes they had on.

And the will to restart.

Caminhões

Quando papai veio pra cá eu não havia nascido. Quando fiz um ano, minha mãe veio pra cá.

Bem, quando ele morava em Monte Alto, onde nasci, ele comprou um Ford, 0km, e encheu de gente pra vir pra cá. Arrumou bastante peão porque isso aqui era sertão e não tinha com quem contar.

Maria Annita

Peão rogou praga

Em 1927, subiu todo mundo no caminhão e, em volta, encheu de gente perguntando: “pra onde vai? Pro Paraná?”. Um dos homens que estava em cima do caminhão respondeu:

– Eu vou pro Paraná pra pegar no pau furado!

Com isso ele quis dizer que vinha pra ser jagunço. O papai ouviu, virou pra ele e disse:

– Não. Eu só vou levar gente que queira trabalhar na terra. Você pode descer já do caminhão pois não quero que pensem que estou levando jagunços pro Paraná!

Ele desceu, a contragosto e esbravejando:

– Eu não vou, mas esse caminhão não vai chegar lá!

E não chegou mesmo!

Marilena

Recomeço

Eles ficaram sem uma peça de roupa pra por no corpo. Sem dinheiro, sem tralha, sem nada. E o papai, ao invés de voltar pras origens, voltou até Conceição do Monte Alegre ( deixou os homens, porque já estava a uns três km da fazenda), emprestou uma roupa de um amigo, seu Sebastião Nórcia, dinheiro pra poder comer e voltar pra São Paulo. Em São Paulo, pegou dinheiro com a família, comprou outro caminhão e tudo o mais e voltou pra cá.

Eu brinquei muito nas ferragens desse caminhão, porque papai levou pra fazenda aquele monte de ferro velho retorcido.

O segundo caminhão foi, por muito tempo, o único caminhão que tinha aqui. Eu me lembro vagamente de, quando menina, ter andado muito nesse caminhão, puxado por uma junta de bois: quando chovia tinha que colocar os bois na frente do caminhão pra arrancar dos atoleiros. As estradas eram um picadão barrento.

Hoje essa fazenda está debaixo d’água. Não era terra requerida. Naquele tempo terra era muito barata.

Maria Annita

Primeiro Porto

O primeiro porto daqui era porto de canoas e chamava Porto do Cisino.

Pra passar alguma mercadoria, emendavam duas ou três canoas, forrava em cima com palmito, ficava como uma jangada. Daí atravessava o Tibagi e vinha pra cá.

Fora o porto do Cisino, o primeiro porto foi o Casanova, lá embaixo. Passava por aqui no Limoeiro, Porto Casanova, Laranjeiras, Anhumas, Assis.

Tudo estrada de chão, atoleiro.

Valdir Pereira

Você é um louco, meu filho!

Nessa fazenda, quando a gente morava lá, que eu era menininha, a mãe e a irmã do meu pai, tia Mariquinha, vieram uma vez pra visitar a gente.

Todo mundo morava em rancho de palmito e eles posaram na estrada. Depois que entra no Limoeiro ali, tem aquele caminho comprido que entra numa estrada, que ia lá na fazenda…

Então, elas estavam posando lá quando ela perguntou se o papai estava. Falaram pra ela que o papai tinha ido não sei pra onde e que não tinha voltado ainda, mas quando voltasse ia passar por ali. E elas ficaram esperando.

Quando ela ouviu, à noite – tava uma noite escura, não tinha luz – a voz do meu pai, chamaram por ele.

Meu pai disse que achou que tava enlouquecendo: ouvir a voz da mãe ali, naquele sertão…

Naquele tempo que não tinha estrada, não tinha nada…E daí a vó foi com o papai lá prá fazenda. Ela, a tia Maria e o chofer ( ela sempre teve chofer particular.

Ouvi meu pai contar que ela falou pro papai:

– José, a coragem tem limite. Depois que passa desse limite não é mais coragem, é loucura. E você é um louco, meu filho!

Queria que ele voltasse pra trás. Mas ele nunca voltou. Só voltava quando acabava o dinheiro. Ia pra São Paulo, trabalhava, trabalhava… Arrumava emprego ou arrumava dinheiro com a família e virava pra trás. Queimava tudo!

Maria Annita

 

Fazenda velha

Fazenda velha

Cheirosa, úmida, linda. Árvores centenárias, troncos que – não raras vezes – quatro homens, braços esticados, não conseguiam envolver. Copas competindo, na escalada em direção ao sol. Folhas chacoalhando ao vento deixando vãos por onde entravam raios de luz para formar mosaicos brilhantes, de reflexos azuis, amarelos, brancos cinzas, vermelhos…Cipós, com várias dezenas de metros, desciam até o solo. Bromélias. Orquídeas.

Ah, que fartura!

Jabuticaba, jaracatiá, ora-pro-nóbis, araçá, ingá, gabiroba. Juçaras, derrubadas às centenas para colher seu palmito – refogado, que delícia! – e, com seus troncos eretos, construir  casas.

Bugios, tamanduás, jaguatiricas, onças pintadas, tucanos, catetos, araras, e toda sorte de pequenos pássaros. E a pesca! Pintados, piabas, cascudos, lambaris. Dourados na piracema…que espetáculo!

Nos dias reservados ao abastecimento da despensa, homens saiam à caça de antas, veados, capivaras. Queixadas eram deixadas na água corrente, um dia inteiro, para perder o gosto forte. Toda carne era preparada e guardada em latas grandes, cheias de gordura.

Aos poucos a mata ia dando lugar a pastagens para bovinos e plantações de milho, feijão, arroz, café. Muito café. Nos quintais, galinhas, patos, gansos, galinhas d’angola, porcos, cabritos. Perus, para o Natal!

Verduras frescas, sempre: hortas eram vitais.

Garapa era feita em moendas puxadas por animais. Da garapa, o melado. Do melado, o açúcar. “Fazia garapa e ponhava ferve. Despois ia esquentando, ia tirando a sujera com um prato de aluminho furadinho, preso na ponta dum pau. Isso até engrossá. Quando tava raspando despejava num cocho de pau e batia inté sucará. Notro dia punha num saco e dexava escorrê a umidade. Tava pronto.”

E o sal?

Ah, o sal…iam na venda comprar!   

                                                                                      

Fartura

Era muita fartura. Tinha peixe, caça, fruta…

Na época de jabuticaba, papai ia pra mata e trazia aqueles jacás, cheinhos. Sentava todo mundo em volta pra chupar. Como era gostoso!

Aqui tinha uma fruta que era muito gostosa chamada ora-pro-nobis. Dava uns espinhos…Era uma delícia. Na casa da vó Mariana, mãe da Mira, tinha um pé que era lindo.

Jabuticaba. Jaracatiá, que é uma fruta parecida com a cajamanga mas que dentro tem uma sementinha igual maracujá ou mamão; ela queima a boca, tem que riscar, tirar o leite, passar na água fervendo, pra então comer. É uma delícia. Araçá  na mata! Pitanga. Gabiroba em quantidade.

Tinha também outras frutas que não me lembro.  Palmito à vontade!

As casas eram feitas de tronco de palmito.

Quem destruiu tudo isso foi o próprio homem.

Nessa fazenda ele plantou muito café. Dava café  muito bem, e aí ele ficou.

Mas também tinha muito porco.

O motorista do caminhão era  Tio João Pereira. Ele levava os barris de pinga pra vender.

Maria Annita

Sabão de cinza                                                                 

A gordura era abundante, e a gente aproveitava o torresmo  pra fazer o  sabão de cinza . Fazia assim:

1 – Enchia um balaio com palha de milho, pra não   vazar;

2 – em cima da palha colocava a cinza. A cinza “adequada”, como se dizia, era a queimada de paus bem escolhidos. Enchia o balaio de cinza;

3 – ia pingando água naquela cinza.  Ela ia soltando uma água preta, cáustica,  chamada “adequada“;

4 – colocava num tacho o torresmo (picava o toucinho para derreter a gordura para a comida e do torresmo era feito sabão) levava ao fogo e ia  colocando o caldo de cinza  (isso quando não tinha  soda);

5 – fervia até derreter tudo e engrossar, até dar ponto de sabão;

6 – depois de quase frio, despejava dentro da

palha de milho, da qual havia sido tirada a espiga, sem desmontar. Separava um pouco as palhas e despejava a massa de sabão. Quando secava formava bolas, que eram guardadas.

Maria Annita

Como fazer açúcar                                                             

Fazia a garapa e punha fervê. Depois que ia   esquentando, ia tirando a sujera com um prato de alumínio  furadinho, preso na ponta dum pau.

Isso até engrossá.

Quando tava raspando (igual doce de leite) despejava num cocho de pau e batia até açucará. No otro dia punha num saco e deixava escorrê a umidade.

Tava pronto!

Olívia Gusmão

O pagamento era em frangos e ovos

Tinha três famílias alemãs que moravam aqui e uma austríaca, os Siloski, que moravam no Jacu. Dona Bárbara Siloski era parteira; trouxe o ofício da terra dela.

Eles plantavam café. Aqui todos tinham propriedade. Tinha fartura, mas não tinha dinheiro.

A gente comprava o sal.

Gordura vinha do porco. Carne era de porco, de caça e, às vezes, de boi.

Verdura, todos plantavam.

Faziam garapa, melado e açúcar.

Roupa a gente tinha de comprar. Todo mundo tinha uma roupa boa pra sair, pra ir na festa da igreja; era a gente que fazia a roupa, ou a costureira.

A mãe da Adelina, mulher do Seu Cariri era costureira. A gente pagava com frango, ovo, coisas assim. O  seu Cariri derrubava mato.

Maria Annita

Não se passava fome                                                                

Nóis era colono de café. Era seis mulher e um home. Ele era ainda piquinininho e nós mulher teve que ir pra roça. Minha mãe chorava muito por ver a gente trabalhá assim.

Meu pai mandava derrubá o mato, queimava e, onde não queimava direito, tinha de repicá tudo, amontoá a madeira e depois queimá.

Meu pai plantô muito café. Acho que já colhi mais de mil saca. Naquele tempo o café já dava a primera carga com 3 ano. Uma beleza!

Aqui dava de tudo: feijão, mandioca….Fome a gente não passava. Tinha muita fruta : pêssego, laranja, mixirica, banana.

Carne de porco a gente fritava e fazia banha. Churiço. O coro, punha no feijão.

Tinha uma maçãzinha azeda, verdinha, que dava grudada na árvore – uma delícia.

Antonia Gusmão

Anita e os bugios

Anita e os bugios

Quando resolvemos vir para o norte do Paraná  (muito poucas famílias, sem estradas) a família mais próxima tinha uns quilômetros da Água do Jacu, família Siloski; as outras bem longe, para o lado de Sertanópolis. 

José comprou uma Winchester (Gala, como eu a chamava, com uma carga de 5 balas) me deu, e eu acostumei a atirar. Hoje está com um genro meu, em Curitiba. Acho que só serve de relíquia, mas para mim era uma grande companheira.

Um dia, José me pediu para ir ver uma criança de um casal que morava numa casa perto do mangueirão de porcos, do qual ele tomava conta. Saí de casa já meio nervosa pois eu tinha o curso de farmácia, mas eu achava que num lugar sem recursos daquele, o que eu iria fazer, com uma coisa dessa responsabilidade, ver uma criança que estava doente?

Entre as nossas casas, uns dois quilômetros e meio de um picadão na mata; quando tinha andado uma boa parte do caminho, comecei a ouvir um ronco forte e contínuo.

Dizem que o medo faz o cabelo subir na nossa cabeça e faz mesmo! Mas como eu, por nada, voltaria para casa para dizer que não tinha chegado à casa do seu Joaquim, não voltei e continuei até chegar à casa dele. Mas só Deus sabe como cheguei!

Então, depois que olhei a criança e disse o que a mãe teria que fazer, tomei um café e resolvi voltar, mas antes de sair eu perguntei ao seu Joaquim o que é que roncava na mata, que eu tinha ouvido e que parecia perto da estrada.   

Então, para o meu alívio de ter que voltar e passar naquele lugar, ele me disse: “não é nada; aquilo é bugio que estava roncando”.

Então eu perguntei:

Ele não faz nada pra gente?

Não – disse ele – eles roncam porque é época de roncar.

Depois eu fiquei sabendo porque, mas o susto e o medo que eu passei, quando me lembro hoje, acho agora que o medo faz mesmo o cabelo subir, como diziam certas pessoas.

E, graças a Deus, a criança ficou boa.                                          

 

Cortava cigarro com um tiro  

Ela atirava bem, viu? O Zé Correia segurava um cigarro na mão e ela cortava com um tiro de wincheste.

Era muié brava, viu? E ajudo a gente nesse Primer de Maio aqui que eu vô te fala.

Ela era farmacêutica? Ela ajudo gente aqui que num foi brincadera. Aqui não tinha nada naquele tempo. Era eles. Se eles não ajudasse, quem ia ajuda? Então a gente deve muito pra essa família, viu Maria Nita? “Dona” Maria Nita, porque ela é um ano mais velha do que eu.

Cesar Benelli

 

 

Boa de tiro

A senhora sua mãe, Dona Anita, também atirava bem, Ave Maria!

Seu Fraquito

Malhação da Judas

Malhação da Judas

Aquele cão era especial.

Aonde o dono ia, estava por perto. Chovesse ou fizesse sol.

Se alguém se aproximasse de Anselmo de forma pouco amistosa, logo rosnava. Isso, se não atacasse de pronto. E só a voz do dono – “calma amigo!” – o deixava novamente dócil e carinhoso.

Se Anselmo precisava ir ao patrimônio, o cão corria atrás da montaria. Quando apeava, lá estava, ofegante, o seu amigo, grande amigo.

E, sem dúvida, Anselmo precisava de amigos. De temperamento esquisito, o homem de tez muito amarelada – sempre taciturno e escondendo-se pelos cantos – não era benquisto pelos outros moradores da fazenda. As crianças morriam de medo pois tinha fama de, durante a quaresma, transformar-se em lobisomem. Apesar de tudo, era um excelente peão e Zé Corrêa o tinha em boa conta.

Na fazenda também morava um amigo de Zé Corrêa, cuja mulher vivia arreliando o pobre Anselmo.

Cansado, Anselmo arquitetou um plano de vingança. Passou dias e dias construindo um boneco de pano, recheado de palha, em tamanho real. Vestiu-o com roupas velhas e esperou a quaresma chegar.

…………………… 

 

Era sexta-feira santa.

Amanhecia. O dia ia ser quente, céu muito azul. Uma ou outra nuvem, aqui, acolá.

Zé Corrêa, madrugador como sempre, foi à cozinha, coou o café e sentou-se próximo à janela.

Os amanheceres na fazenda eram magníficos. As casas, cercadas pelas árvores centenárias, o sol penetrando por entre as ramagens chacoalhadas pela brisa, salpicando aqui e ali milhares de pontinhos luminosos, até surgir, esplendoroso, qual enorme fogaréu, banhando de luz tudo e todos.

Suspirando, enlevado, Zé Corrêa levantou-se espreguiçando. Foi até a porta para chamar João, que morava com Maria na casa ao lado.

Deu de cara com um boneco enorme, pendurado na frente da casa do amigo. Olhou em volta procurando pistas do idiota que cometera tal desatino e logo descobriu: fora Anselmo!

Muito bravo seguiu em direção à casa do peão, lá pros lados do engenho.

Acordou-o, mal deixou que se calçasse e levou-o, a toque de caixa,  em direção à casa.

Anselmo ficou apavorado. Fora descoberto! Era só olhar para o patrão para saber. E emprego bom como aquele não era fácil não!

Ah, seu Zé, o sinhor me descurpe. Prometo que num faço mais! – choramingava o pobre enquanto corria para alcançar o patrão, que não disse mais nenhuma palavra.

Chegando em frente ao Judas, Anselmo soube, de imediato, como fora descoberto: deitado aos pés do boneco, cuidando de suas roupas, estava seu mais fiel amigo!

 

 

 

Casas da fazenda

Papai trouxe o tio João Pereira – ele era primo da minha mãe – pra fazenda e construiu uma casa pra ele, perto da nossa.

Tinha uma rua que passava na frente e, do outro lado, tinha bastante gente, famílias conhecidas como os Mussato, os Andreato.

Todas as famílias do começo vieram do Estado de São Paulo, Monte Alto e região.

Maria Annita

Mulheres na derrubada, não!

Mulheres na derrubada, não!

Logo no começo da derrubada do mato para fazer plantações e outras benfeitorias, eu convidei a Maria, mulher do João Pereira, meu primo, para irmos até a derrubada para vermos como era e levarmos café para o José.

Fomos pelo barulho dos trabalhadores e, quando chegamos perto, gritamos para que nos ouvissem e parassem o serviço.

José gritou que  parássemos ali e esperássemos por ele, pois eles  já  tinham feito o pique numa porção de árvores para derrubar, as que nós estávamos embaixo e aí, adeus Anita e Maria.

Aprendemos a não ir onde não éramos chamadas, mas que eu fiquei com vergonha, fiquei mesmo.

João, acho,  nunca ficou sabendo disso pois ele estava fora com o caminhão, aproveitando a estrada seca para trazer mercadorias para o custeio da casa. Eu e Maria nunca contamos nada para ele e José também não.                                                                                                                                                    

 

Ah, que pão gostoso!

Ah, que pão gostoso!

Aquela italianona gorda, mulher do Mussato, fazia um pão maravilhoso.

Dona Anita, quando ganhava um daqueles, quase morria de tanto comer.

E sempre ganhava!

Num dos bem vindos dias de pão assado, a italiana desculpou-se muito porque a massa não tinha crescido o suficiente.

E isso apesar de ter deixado o “velho” bastante tempo deitado, esquentando a cama, antes de por o pão para crescer. O frio era tanto que, mesmo assim, o pão não crescera.

Nunca mais dona Anita comeu daquele pão delicioso, nem deixou que alguém comesse!

 

 

 

Fermento de litro

1/2 litro de água

1 batatinha ralada

1 colher (sopa) de açúcar, bem cheia

1 colher  (sopa) de sal

         Deixar fermentar.

       Quando for fazer o pão, completar o litro com água e agitar bem. Usar a metade dessa mistura para fazer a massa do pão.

Maria Annita

Fermento de massa

         Fazer a massa do pão com  fermento de litro.

       Tirar um pouco dessa massa e fazer bolinhas do tamanho das de ping pong. Jogar na farinha de trigo e deixar azedar.

        Na noite anterior ao dia de fazer pão, desmanchar uma bola de massa velha, sequinha, em água morna com um pouco de açúcar. Colocar farinha de trigo até formar um mingau meio mole. Tapar com um pano pra ficar quente. No dia seguinte, a bacia vai estar cheia!

       Juntar a esse fermento “crescido”, ovo, gordura, leite ou água, e fazer o pão.

       Bolos eram feitos com bicarbonato.

Maria Annita

 

 

Canta pra mim!

Canta pra mim!

Aquela moça era bonita. Aliás, bonita era pouco: era realmente linda, deslumbrante!

Toda semana  vinha ao banco, via o saldo, tirava algum dinheiro, pagava uma conta, conversava um pouco e ia embora.

Ismael, sempre que a via, deixava o que estivesse fazendo e corria  atende-la. Aos poucos foram se tornando “velhos conhecidos” e o baixinho passou a mostrar uma intimidade que começava a incomodá-la.

A cada dia que passava, mais galanteador Ismael se mostrava. A moça, sempre tratando-o muito educadamente, fingia que não entendia as investidas. Até que numa dessas idas ao banco,  escutou da boca de seu gerente:

– Quer sair comigo esta noite? Eu vou cantar pra você debaixo das estrelas. Só nós dois!

Muito sem jeito, intimidada com a ousadia,  aceitou o convite e foi embora.

A noite chegou e encontrou um Ismael feliz, banhado e perfumado, indo ao local combinado e que, mais feliz ainda ficou ao ver que o carro dela já estava lá.

Estacionou com um sorriso no rosto e já estava descendo do carro quando foi violentamente agarrado pelo  colarinho e arrastado de encontro ao corpanzil  de um marido muito zangado!

– É você que gosta de cantar? Não ia cantar pra minha mulher? Então canta, mas é pra mim! Canta Galopeira! Canta!

E entre safanões e ameaças, gaguejando e desafinando…

– Galopeeeeeeeira!

Photos

wasteing time

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El Anatsui

El Anatsui

breakfast after Irene

breakfast after Irene

unforgettable

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Ana Deliberador

ana-deliberador

2016 | Member of the American Society of Botanical Artists – ASBA

2015 | Associate Member da Society of Botanical Artists – SBA

2004 | Member of the Botanical Illustration Center of Paraná – CIBP

1996 | Professional Association of the Painters of Paraná, Registration Nº 456

1979 | Ministry of Education and Culture – MEC – Inscription n°1221

2013 | Specialization in Botanical Illustration by The Society of Botanical Artists – SBA, England. Distinction Certificate

2002 | Bachelor in Painting – Escola de Música e Belas Artes do Paraná – EMBAP

1976 | Bachelor in Biology – Fundação Faculdade Estadual de Filosofia Ciências e Letras de Cornélio Procópio PR

2015 | Botanical Art Course with the illustrator Vincent Jeannerot

2015 | Graphite with Rogério Lupo

2010 | Reviving Plants Course with the Biologist and Scientific Illustrator Rogério Lupo

2010 | Workshop with Christabel King

2004 | Botanical Illustration Course with the Botanical Illustrator Fátima Zagonel

1997 | Drawing of Human Figure with Lélia Brown

1995 | Painting on Canvas with Rose Cavassin

2014 | Technical reviewer of the book Arte Botânica do Paraná by Centro de Ilustração Botânica do Paraná – CIBP

2013 | Exhibition The Language of Flowers – Westminster Gallery, Westminster Center Hall, London, UK

2013 | Participation in the Exposición de Ilustración Científica Botânica, La Plata, Argentina

2012 | Exhibition Botanical Celebration – Westminster Gallery, Westminster Center Hall, London, UK

2011 | Thecnical reviwer of the book Ilustração Botânica – Princípios e métodos by Diana Carneiro

2011 | COM.EN.ART artist-in-residence E.N.Huyck Preserve Rensselaerville, New York, USA

2010 | 3rd National Exhibition of Scientific Illustrators – National Congress, Brasília

2010 | Exhibition 10 Years of the Centro de Ilustração Botânica do Paraná

2005 a 2011 | Exhibits (yearly) of Botanical Illustration – Crystal Plaza Mall, Curitiba, Paraná

2005 | Collective Exhibition at the 56th National Botanical Congress, Curitiba, Paraná

2001 | 1st Art Exhibition, Escola de Música e belas Artes do Paraná – EMBAP

1995 a 1997 | Participations in Collective Contemporary Art Exhibitions, Art Galleries

1990/1991 | Publicação de diversos títulos na área de Meio Ambiente, entre eles Mata Ciliar, Humanização no Trânsito e Metodologia para Desenvolvimento Extraclasse de Programas Ambientais.

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